História Viva

Memórias entre o sertão e a cidade

Histórias do sertão 



Capítulo 1 – Raízes e Partida

Nasci em Salgado do Melão, terra de sol forte e vento que trazia cheiro de roça e esperança. Era um lugar pequeno, mas cheio de histórias, onde cada casa guardava segredos e cada família carregava sua luta.  

Com apenas trinta dias de vida, já deixava o sertão para seguir viagem rumo a São Paulo. Mal havia aprendido a respirar o ar seco do interior e já me esperava o ar pesado da cidade grande. Essa travessia tão precoce marcou meu destino: nasci para caminhar entre mundos, para carregar o sertão dentro de mim mesmo quando os trilhos me levassem para longe.  

Naquele tempo, o Brasil vivia dias de contrastes. Era 22 de dezembro de 1973. O trabalho de garçom podia garantir bois, casas, carro e até viagens anuais. Não havia luxo — apenas uma televisão preto e branco de segunda mão, ladrões rondando as esquinas, e uma mãe que transformava o excedente das pizzas em biscoitos e Yakult para os filhos. Mas havia família, e isso era o bastante para sustentar sonhos.  

O sertão ficou como lembrança, São Paulo se tornou realidade. E eu, ainda bebê, já carregava nas costas o peso de uma história que começava a ser escrita.  

Conto de uma vida

Era 1º de janeiro de 1973. O Brasil vivia o auge do milagre econômico, mas já sentia os primeiros sinais da crise do petróleo. Roberto Carlos embalava multidões com Rotina, enquanto Luiz Gonzaga seguia como Rei do Baião, Dominguinhos surgia como mestre moderno da sanfona, Jackson do Pandeiro lembrava a força dos ritmos nordestinos e Marinês mantinha viva a tradição do forró. A música sertaneja ganhava corpo com Milionário & José Rico, e o samba se fortalecia com Clara Nunes e Paulinho da Viola. Secos & Molhados explodiam com Sangue Latino, Raul Seixas lançava Ouro de Tolo, Luiz Melodia trazia poesia urbana, e Elizeth Cardoso espalhava irreverência.  

No cenário internacional, Elton John dominava com Crocodile Rock, Pink Floyd mergulhava em psicodelia com The Dark Side of the Moon, os Rolling Stones seguiam incendiando palcos, os Bee Gees embalavam com baladas e o soul de Stevie Wonder atravessava fronteiras. Era um tempo em que rádios e vitrolas misturavam baião, samba, rock e baladas, cruzando oceanos e serras.  

22 de dezembro de 1973, dia D. O pai vivia em pensão de beliches em São Paulo, trabalhando em restaurantes, garantindo almoço e jantar mesmo nos dias de folga. A cidade era barulho, pressa, esforço como moeda e futuro como promessa. A mãe morava em casa de fazenda na Bahia, ia à cidade apenas em dia de feira, lia livros, criava peças teatrais, corria o chapéu para roupas e regalos.  

Mas a raiz da história estava nos avós. O avô, Manuel Fernandes, barbeiro e fazendeiro, homem honrado e calmo, Rei dos bacamartes de carregar pela boca. Herdou terras e trouxe consigo a família original. Vindo da região rica de Ilhéus, sul da Bahia, recusou-se a ser rico de poucas posses. Deus o abençoou com um lote rural em Glória, na Bahia, onde tinha direito de explorar toda a serra Siridó. Ali se retirava brita para estradas, e a renda foi útil para manter a família. A serra era sustento, o ofício era honra, e sua presença marcava o destino da linhagem.  

Minha mãe viveu até os 13 anos em Ilhéus, cercada por praias, rios e abundância, lugar de prosperidade e riqueza. Dali nasceram seus talentos para leitura e teatro, que herdei e só agora uso em plena produtividade. Mas a família foi abduzida para Glória, cidade seca ao lado da futura hidrelétrica de Paulo Afonso. Uma tragédia aconteceu: minha avó tombou em acidente de caminhão, deixando oito filhos e filhas sob a responsabilidade de Manuel Fernandes. Foi então que entrou em cena Dona Dedi, madrasta que marcou a vida de todos. Mãe de carinho e de pontapés, manteve a família unida pelo amor e pela dor, com pulso firme e presença de rainha da fazenda do Siridó. Ambos viveram uma vida longa e cheia de boas lembranças, sustentando a família entre dureza e ternura.  

Dois cenários que se encontraram. O pai sobrevivendo na cidade, a mãe inventando cultura no sertão, o avô firme na serra, barbeiro e fazendeiro, a madrasta impondo ordem e afeto. Quatro forças que se somaram. E desse encontro nasceu a história que agora se escreve.  

Três meses antes da concepção, em janeiro de 1973, o Brasil ainda crescia sob Médici, mas o mundo já se agitava com tensões no Oriente Médio. O novo Código de Processo Civil havia sido sancionado, e o Tratado de Itaipu seria assinado meses depois. O clima variava: no Sudeste, dias quentes e úmidos, chuvas de verão; no Nordeste, calor semiárido e chuvas esparsas. Sexta-feira era festa, sábado também, domingo era igreja e ponto de encontro. Paqueras discretas, negócios e oportunidades.  

Era nesse caldo de música nacional e regional, sanfoneiros que embalavam o sertão, hits internacionais que cruzavam mares, política tensa, economia em ebulição e raízes familiares firmes na serra Siridó que começava a se formar o ser único, fragmentado e dissonante, que nasceria em dezembro de 1973.

## Dois meses antes da concepção 

Abril de 1973 – Dualidade Paterna

Dois meses antes da concepção

Abril de 1973. O pai tinha 25 anos, vivendo em pensão de beliches em São Paulo, trabalhando em restaurantes, garantindo almoço e jantar mesmo nos dias de folga. A cidade era movimento, barulho, pressa. O esforço era sobrevivência, o futuro promessa.  

No corpo, milhões de células nasciam todos os dias. Espermatozoides produzidos sem parar, guardados no epidídimo. Alguns sobreviviam semanas, outros eram reciclados. Na noite certa, um deles encontrou o óvulo. Não era acaso. Era química. Era destino.  

Do lado paterno, vigor e juventude. Do lado materno, silêncio e imaginação. Do encontro, cromossomos XT, 23 de cada lado. Fragmento e dissonância. Promessa de um ser único.  
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Mês da Concepção
Abril de 1973. Luiz Gonzaga já era majestade. O baião, o xote e o xaxado ecoavam nas feiras e festas, e sanfoneiros locais seguiam sua trilha, animando sextas e sábados. No rádio, Sangue Latino e Ouro de Tolo dividiam espaço com o som da sanfona.  

Na Bahia, na feira de Glória, sanfoneiros tocavam até o sol cair. Cabras e ovelhas eram trocadas por moedas, paqueras discretas surgiam ao som da sanfona. A mãe lia livros, mas também dançava. O chapéu corria, peças teatrais se misturavam à música.  

Em São Paulo, na pensão, migrantes nordestinos levavam o forró. O pai, entre pratos e panelas, ouvia Gonzaga em rádios de cozinha. A sanfona era saudade, ponte entre o sertão e a cidade.  

Mas havia mais: José Preto, filho de Adão, do clã dos Lulu, já tinha construído sua casa do zero, aterrando um lote perto de um serrote. Pequeno monte que, quando chovia, a erosão rasgava a terra fértil. Antes mesmo do casamento, já havia casa, bois, criações e renome. Era sinal de esforço e de raiz fincada.  

Abril de 1973. O Brasil pulsava ao som da sanfona. Gonzaga brilhava como rei. No sertão, festa e feira. Na cidade, saudade e sobrevivência. E no meio desse som, cromossomos se encontraram. Um ser único começou a se formar. Fragmentado. Dissonante. Marcante. Talvez a sanfona tenha sido o gatilho. Talvez o baião tenha mexido na Matrix.  
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## Semana da Concepção

Semana da Concepção
Abril de 1973. Era tempo de São João. As festas juninas movimentavam o sertão: milho abundante, pamonha, canjica, bolo de fubá. Fogos no céu, bandeirolas coloridas. Sanfoneiros tocavam baião e xote. Luiz Gonzaga reinava como Rei do Baião, Dominguinhos já brilhava com sanfona doce e moderna. Na música caipira, Milionário & José Rico começavam a despontar. Roberto Carlos seguia como ídolo nacional, embalando corações urbanos. O rádio misturava baião, samba e música romântica.  

Na Bahia, a mãe vivia entre livros e teatro. Na feira, cabras e ovelhas trocadas por moedas. No terreiro, quadrilhas ensaiavam. O milho era ouro. A sanfona embalava paqueras discretas. Era tempo de abundância e celebração.  

Em São Paulo, o pai, jovem de 25 anos, seguia na pensão, trabalhando em restaurantes, sobrevivendo na cidade. Mas o coração lembrava das festas juninas, das noites de fogueira e forró. A saudade era ponte entre o sertão e a metrópole.  

Mas havia um detalhe essencial: José Preto, filho de Adão, do clã dos Lulu, já tinha construído sua casa do zero, aterrando um lote perto de um serrote. Pequeno monte que, quando chovia, a erosão rasgava a terra fértil. Antes mesmo do casamento, já havia casa, bois, criações e renome. A base estava firmada, o chão já era deles.  

Abril de 1973. Semana da concepção. O óvulo estava disponível, o espermatozoide aguardava. XT 23 de cada lado. Fragmento e dissonância. Promessa de um ser único. O sertão celebrava São João, a cidade sobrevivia em silêncio. Gonzaga tocava baião, Dominguinhos fazia a sanfona chorar, Roberto Carlos embalava multidões. Talvez a fogueira tenha sido o sinal. Talvez o baião tenha mexido na Matrix. Naquela semana, mundos se encontraram. E a vida começou.  

Portanto, o dia da pimbada muito provavelmente foi sexta-feira, 30 de março, ou sábado, 31 de março, ou sexta-feira, 6 de abril, ou sábado, 7 de abril de 1973 — dentro da janela fértil que resultou no nascimento em dezembro.  

E neste alinhamento planetário foi dado o Start.  

Segue o Baile.

## 22 dezembro de 1974

Um Ano de Estrada

Um ano depois do nascimento, já não havia sertão como lar. Foram apenas trinta dias na Bahia, e logo a travessia para São Paulo. A estrada virou berço, o ônibus virou casa. Mamãe cochilou, o bebê caiu do colo, porta do busão como primeiro encontro com o destino.  

A vida seguiu no balanço das rodas. Rodoviária como portal, motor como trilha sonora. O cheiro de diesel misturado ao milho das festas juninas que ainda ecoavam na memória. O sertão ficava para trás, mas nunca saía de dentro.  

O rádio misturava baião, música caipira e Roberto Carlos. Luiz Gonzaga ainda reinava, Dominguinhos fazia a sanfona chorar, Milionário & José Rico já embalavam os viajantes. Era música de estrada, de saudade, de travessia.  

Fragmentado, dissonante, marcante.  
Um ano de vida e já marcado pela viagem. Definitivamente, a vida seria dentro de um ônibus.  
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