Toyota o jegue a lenda
Toyota, o jegue, a lenda
Meu pai — que Deus o tenha — nasceu, cresceu e conheceu o Criador, não sem antes viver bem, fazer história e deixar lembranças que ainda ecoam. Entre elas, o Toyota, um jegue que parecia maior que um burro novo, mas que carregava em si a força de um companheiro fiel. No logradouro Salgado do Melão, hoje município de Macururé, distante cem quilômetros de Paulo Afonso, antes pertencente a Rodelas e depois a Glória, está registrado meu nascimento. Terra marcada pela passagem dos índios, que venderam o que podiam carregar até Rodelas, à beira do São Francisco. Hoje, a Funai é renda e os barões são dos cocos.
Rodelas e sua história. Quente e seca, mas cheia de segredos. A família dos Antônio Lulu viu ali oportunidade: caçar olhos d’água. Onde havia mato verde, pedras pisadas por bichos, pés de caju e fruta-do-conde, ali estava a promessa de água escondida. Cavava-se, encontrava-se água, comia-se fruta, plantava-se semente. Era o ciclo da vida repetido desde o início da humanidade. Com água garantida, o gado entrava em cena. Criado solto, cercado por montanhas, pastava nos tempos de chuva, engordava e seguia viagem com os boiadeiros. Prosperidade que fez nascer fazendas, matadouros e palácios — hoje ruínas saudosas, pilares que lembram a Grécia, testemunhas de tempos de ouro.
A vida em família
A partilha nunca foi fácil. Irmãos brigavam por leite e atenção da mãe. O carinho, muitas vezes, vinha em forma de surra. Minha mãe, que amo, era presença constante, mas também estresse. Penso nela todos os dias, mas estar perto era como viver vida de gado: amor e dureza misturados.
O encontro com Toyota
Um dia, novinho, o jegue parou em frente à casa de meu pai. Esturrou, como quem pede atenção. Meu pai saiu, viu o bicho magro, inteligente, e aceitou o trato: “Cuide de mim e eu te ajudo.” Negócio feito.
Toyota aprendeu rápido. Sabia distinguir o tom da voz: “Toyotinha” era alimento, “Jeeeegue” era castigo. Anos de parceria criaram cumplicidade e também atritos. Uma cabeçada infeliz chegou a quebrar dentes de meu pai. Mas o vínculo resistiu.
Memórias de carroça
Andar de carroça para buscar palma era rotina. Eu, menino curioso, perguntava sobre nomes, locais, histórias. Meu pai puxava o ar, e Toyota já se preparava: comida, castigo ou tortura. Eu dizia: “Pai, cante ou fique calado, fale o nome dele.” Mas eles tinham sua própria linguagem, antiga, feita de gestos e silêncios. Locais sem nome, mas conhecidos por todos: a baixa de Paulo, a curva de Genésio, o alto dos Duros, o lado de Chico. Meu pai me mostrava nossa genealogia: José Preto, filho de Adão, dos Antônio Lulu. O ferro de marcar precisava conserto, as vacinas estavam acabando, cabras com bicheira exigiam cuidado. Era o ritual da roça, da vida simples e dura.
A lenda viva
Toyota, forte e feliz, parecia um burro jovem. Ciumento do rabo, atento ao comando, era mais que um animal: era parte da família, parte da história. E reza a lenda que ainda vive, carregando consigo o peso de ter sido companheiro, testemunha
e lenda do sertão.
Toyota, o jegue, a lenda
Lá havia inteligência que não se aprende em escola, códigos de conduta e a lei do sertão:
> “O homem que tem nome vale o que tem, carrega nos braços, pescoço e dedos coisas que sinalizam quem ele é.”
Muito sorrateiro, perguntei ao meu pai quanto valia a carga de palma que transportávamos no nosso campeão Toyota. Ele riu e respondeu:
“Pirão perdido, estamos a cem quilômetros do armazém e a palma não vai nascer de novo tão cedo. Qualquer valor vai matar os bodes antes de chegar à cidade.”
Macururé nunca me agradou. Lá o cheiro da honestidade se misturava às ruínas de tempos de ouro, quando o gado chegava gordo e partia maduro. Hoje restam apenas prefeitura e igreja, bancos saqueados pelo novo cangaço. Foi naquela região que Lampião invadiu um casamento, impondo sua crueldade em tom marcial. História triste, mas verdadeira, porque quem contou tinha cheiro honesto e sabia que certas coisas precisavam ser ditas.
No sertão, os coronéis tinham suas regras:
- Convidados traziam presentes, comiam, bebiam e dançavam.
- Estranhos recebiam água e eram mandados embora.
Às vezes, nem água havia, e daí nasciam desavenças.
Lá existe um ditado:
> “Não tem no cu o que uma mosca possa fazer um lanche.”
Eu era o Pirão Perdido. E já sabem a minha história.
Mas Toyota comia bem, tomava vacinas e reinou como rei dos jegues. Já maduro, com marcas no pelo, meu pai dizia que eu tinha que estar com ele para “se alimpar”. Não entendi. Achei que ia fugir. E fugiu. Só havia um lugar para beber água, e eu dei de sobra naquele dia. Sumiu por trinta dias. Tive que comprar uma moto de leilão para ir e voltar da roça, dar água aos bichos era penitência. Caminhar a pé era arriscado: cascavéis, pedras, o corpo se arrastando. A moto quebrou na volta, e foi ela que socorri. Subidas, penas retas, exaustão. Um momento para pensar na vida, nas mulheres, nas conquistas e nos erros. “Cometa sempre erros novos”, eu pensava.
Ao trigésimo dia, um jegue grande deitou-se à minha frente, rolando no chão como quem toma banho de areia. Uma semana depois, meu pai perguntou:
“Você não viu o Toyota não?”
Respondi: “Deve ter morrido.”
Ele disse: “Não. Esturrou aqui três dias seguidos. Quando falo com ele, corre e desaparece.”
Era ele. Bonito, pelo brilhante, mas quase morto. Meu pai, sábio, disse: “O milho dá energia, mas depois fica ácido e os bichos ficam feios. A solução é soltar para eles renascerem.”
Deu trabalho, mas Toyota voltou à labuta. Brincou até cansar e por fim aceitou o laço. À minha mãe obedecia, a mais ninguém.
Comiam brotos de tudo: mato, orvalho, cascas, flores úmidas e cheirosas. Aprendi mais uma: os brotos são energéticos, os maduros são doces. Aqui não há inverno de neve, apenas sol quente até as seis da tarde, frio às onze da noite até quatro da manhã. Depois, até a cama fica morna.
Lugar onde nasci, e se Deus permitir, onde vou passar meus últimos dias. Sozinho, feliz e em paz.
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