Minha primeira visão da realidade
Minha primeira visão da realidade
A cortina foi retirada e o quarto se revelou em paredes azuis. Eu estava deitado na cama, olhando o teto de madeira pinus, cor suave, e a lâmpada incandescente brilhava como um sol particular. Ali, pela primeira vez, tive consciência de existir. Estava sendo trocado: fraldas de pano, alfinete, talco, o cheiro de serviço entregue e pronto. Limpo e renovado, agitado pelas manobras, dois cliques e já estava vestido com um colan que se prendia por baixo, quase como um maiô de natação. O dia era ensolarado, e essa é a minha primeira lembrança consciente. Algo em torno de quatro anos de idade. Uma cena simples, mas que marcou: o azul das paredes, o calor da lâmpada, o toque das mãos que cuidavam de mim. Foi ali que percebi que a vida tinha forma, cor e cheiro. E ao redor, tudo se mostrava simples e ordenado. O quarto limpo, o cheiro de talco, o movimento repetido das mãos. A rotina seguia como se fosse apenas mais um dia, mas havia algo diferente: um olhar fixo na luz, uma atenção que se formava. O ambiente revelava a cena sem precisar de palavras — apenas constatou que ali, naquele instante, uma criança começava a enxergar o mundo. O clima era triste, choro e pesar. Algumas coisas marcam até mesmo uma criança. Um irmão levado pelas águas calmas e traiçoeiras da represa, ceifando uma vida jovem. E lá estava eu, de braços em braços, tentando compreender o vazio. No fundo do quintal, uma casa de pombos. Belos, de voo majestoso, planavam no ar sua dança branca. O cuidado com eles mostrava orgulho e disciplina, como se o mundo ainda tivesse ordem e beleza. O ambiente carregava silêncio pesado. O choro se misturava ao som das asas, e o quintal mostrava sua contradição: a dor da perda e a persistência da vida. A represa parecia calma, mas guardava sua traição. Os pombos, indiferentes ao luto, seguiam voando, lembrando que o tempo não para. A vida e um acaso em instantes tudo pode mudar, desde cedo aprender com a experiência dos outros e ouro, nesta terra de fraldas, talcos e alfinetes.
Alguns anos se passaram e eu já ia a venda Caçar Doces.
Velho Dodge, Joaquim, reis dos doces e das guloseimas que me faziam correr perder o equilíbrio acelerar ainda mais retornar o equilíbrio e no gelo da coluna, ficar aliviado rir de desespero e diminuir lentamente o rompante, e se dar por feliz por não sentir o cheiro de perto e o gosto da rua de barro, as tardes eram de respeito e saudade, velas iluminação o caminho das almas MMGL, Fez falta. Raladinho e magricelo, para idade, agilidade e pouco controle era o terror de mamãe, no colo pesava e solto era imprevisível.
Os pés de uvas japonesas de cheiro doce e sabor horrível, a vizinha japonesa que era generosa levantava o vestido e me fazia sorrir. Eu gritava do meu lado do muro e ela jogava água,
A vergonha que fiz a mamãe com o Yakult, bebi dois litros e nunca mais repeti o que as crianças fazem hoje no mercado, na minha vez foi no chão vermelho de barro da rua, castigo veio em forma de caganeira o Yakult não perdoa. A música era de Roberto Carlos Eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar.
Lanche de Pombos
Mamãe escolhia os maiores, seis pombos para a panela. Limpos, temperados, mergulhados no óleo quente. Eu, magrelo e faminto, mordia até os ossos, sem experiência, mas com apetite maior que o mundo. A segunda porção veio sem ossos, e ainda assim não bastava: vinte não seriam suficientes. A mão de mamãe doía também, e o aviso vinha firme:
— Hoje você me paga o novo e o velho.
Mas dez minutos depois já era leite e sono. Duas colheres de leite moça, água morna, mexeu, bebeu, dormiu. Controle simples para crianças teimosas.
Mamei em três mamães. O cheiro era bom e ficou, o gosto não era bom, mas a energia era verdadeira. Eu era mimado, querido, chorão e ralado.
O primeiro contato com o preço dos beijos: herpes nos lábios. Mocinhas adolescentes brincavam com Dedé, cada uma mais ousada me mamavam, rindo. Eu não sabia, e paguei caro: boca em feridas, dias de fraqueza. O remédio veio em gotas de alium — água de alho. Os outros medicamentos perderam tempo de um menino.
Capítulo – Memórias de Infância Ritmo x2
Mamãe escolhia os maiores pombos, seis para a panela. Limpos, temperados, mergulhados no óleo quente. Eu, magrelo e faminto, mordia até os ossos, sem experiência, mas com apetite maior que o mundo. A segunda porção veio sem ossos, e ainda assim não bastava: vinte não seriam suficientes. A mão de mamãe doía também, e o aviso vinha firme:
— Hoje você me paga o novo e o velho.
Mas dez minutos depois já era leite e sono. Duas colheres de leite moça, água morna, mexeu, bebeu, dormiu. Controle simples para crianças teimosas. Mamei em três mamães. O cheiro ficou, o gosto não era bom, mas a energia era verdadeira. Eu era mimado, querido, chorão e ralado.
Os beijos das mocinhas adolescentes custaram caro: herpes nos lábios, boca em feridas, dias de fraqueza. O remédio veio em gotas de alho, tempo perdido de menino. O sabor sólido que ficou na memória foi o cream cracker Piraquê. Criança não esquece.
Meu xará Djalma, Dona Fátima, filha Karen. Tia Euza, minha segunda mãe. E o cachorro honesto da Vila Carrão: fui dar carinho, recebi mordida entre boca e nariz. Injeções, HC, Hospital Seios da Face. Nunca mais confiei. Hoje só olho de longe: doguinhos, fiquem longe.
Vieram também o cachorro-quente e as balas de jujuba. As de anis, açucaradas, sempre no saquinho duvidoso de sacolé, nos caminhos dos hospitais. Criança sabe. As tardes eram embaladas por músicas mal entendidas, palavras estrangeiras repetidas sem saber, inventando sons e sentidos. A melodia não precisava ser correta, bastava preencher o vazio e dar ritmo ao tempo.
As peças de gesso, algumas pintadas, outras não. Mickeys sem cor, esperando a imaginação de uma criança para ganhar vida. As vendas da época eram um espetáculo: doces de copinho, guarda-chuva de chocolate, mini chicletes, balas kids engasgadoras, o homem do pé de algodão doce colorido.
Jordanópolis ficou para trás, mas ainda estou perto. As lembranças não se apagam. Pombas nunca mais, mas o sabor das jujubas, o cheiro do hospital, o algodão doce no ar — tudo isso continua vivo.
## O Quarto Azul e os Pombos
O quarto tinha paredes azuis. O forro era de madeira pinus. A lâmpada incandescente brilhava forte como um sol. Eu estava na cama e sentia o cheiro do talco e o aperto dos alfinetes na fralda de pano. Era um bom cheiro. Eu tinha quatro anos e o mundo parecia simples e ordenado.
Depois veio a tristeza. A represa levou Manoel Messias. As águas eram calmas, mas eram traiçoeiras. Havia choro na casa. Eu passava de braço em braço. No quintal, Seu Virgílio alimentava os pombos. Eles eram brancos e faziam voos majestosos. Eles paravam no ar. Seu Virgílio tinha orgulho dos seus campeões. A morte estava dentro da casa, mas os pombos continuavam voando lá fora.
Eu era magro e rápido. Corria até a venda do Joaquim para buscar doces. O chão era de barro vermelho. Eu perdia o equilíbrio, sentia o gelo na coluna, mas não caía. Se caísse, sentiria o gosto da rua. Minha mãe dizia que eu era o terror. No colo eu pesava, mas solto eu era como o vento.
Bebi dois litros de Yakult e passei mal no chão de barro. O castigo veio rápido. Criança não repete o erro quando o corpo paga o preço.
Uma vez tive fome de pombos. Mamãe escolheu seis. Eles foram para a panela com óleo quente. Comi os pássaros e mordi os ossos. Eu era um caçador impiedoso. Depois tomei leite com água morna e dormi. O sono era bom.
Tive muitas mães e muitos beijos. As moças me beijavam e a herpes veio depois. A boca ardia. O remédio era água de alho. Doía, mas curei.
Na Vila Carrão, um cachorro me mordeu o rosto. Eu queria dar carinho, mas ele me deu os dentes. Fui ao hospital e tomei injeções. Desde aquele dia, eu olho os cães de longe. É melhor assim.
No rádio, Roberto Carlos cantava sobre amigos. Em outro canto, uma música em inglês falava sobre dançar. O mundo era feito de jujubas de anis, fumaça de velas e o cheiro doce das uvas japonesas que tinham gosto ruim.
Jordanópolis ficou para trás. Os pombos também. Mas a memória é como o barro vermelho: ela gruda na pele e não sai.
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