Infância difícil

 ## Infância difícil



Reimberg, olaria tijolos terreno barranco.

Nascentes mata virgem couro de cobra

Trator, cortar barranco no enchadeco.

Contrução, buraco, aço barulho, queda furo entre as costelas, osec, cirurgia

Multidão romaria doe te passa bem. Apenas as costelas doía, panela de pressão explodia, mandioca frita alegria, ovos fritos, batatinha no vinagrete, casamento festa grande lição em casa temos paz fora e agito correria, be a ba, agora sei ler, somar e cair de barranco.

Sabão phebo, seu Joel, Kito, marcenaria.

Bar descobertas facadas sangue morte.

Barranco escadas, frente sem portão.

Forro alegria tocar violão dor ironia, cantar não era bom mas letras eu sabia.

Fazer pipas ganhar dinheiro bicicleta, tv e antena separadas surra dor dentes cáries.

Infância de dono de bar, sem simpatia, caderno do fiado nada de alegria.


 Reimberg. É uma escrita de terra, aço e silêncio.

## O Barranco e o Aço

O Reimberg era terra de olaria. Onde havia olaria, havia tijolos e havia o barranco. O terreno era bruto. Nas nascentes, a mata era virgem e as cobras deixavam o couro para trás. Nós cortávamos o barranco no enxadeco. Era um trabalho de homens, feito por mãos de meninos.

A construção fazia barulho. Havia o buraco e havia o aço. Eu caí. O aço perfurou entre as costelas. Foi uma queda limpa, mas o furo era fundo. Veio a OSEC e veio a cirurgia. O hospital tinha o cheiro de coisas que precisam ser consertadas.

Na romaria, a multidão passava. Eles diziam que eu ia passar bem. As costelas doíam quando eu respirava, mas a comida era boa. A panela de pressão explodia na cozinha. Comíamos mandioca frita, ovos e batatinha no vinagrete. Havia alegria no prato. No casamento, a festa era grande. Aprendi a lição cedo: dentro de casa se tem a paz; fora, o mundo é agito e correria.

Aprendi o bê-á-bá. Agora eu sabia ler. Sabia somar. E sabia como era cair de um barranco.

O sabão era Phebo. O Seu Joel e o Kito cuidavam da marcenaria. O cheiro da madeira cortada era bom. Mas no bar, as descobertas eram diferentes. No bar havia facadas. Havia sangue e havia a morte. O bar não tinha simpatia.

Nossa casa tinha escadas no barranco e não tinha portão. O forro era de madeira. Eu tocava violão e sentia a ironia da dor. Eu não cantava bem, mas conhecia as letras. As letras não mentem.

Fiz pipas para ganhar dinheiro. Comprei uma bicicleta. A televisão e a antena ficavam separadas. As cáries traziam a dor nos dentes e a surra trazia a dor no corpo. Ser filho de dono de bar é conhecer o caderno do fiado. O fiado é uma conta que nunca traz alegria.

Tudo o que restou foi o aprendizado. No Reimberg, ou você cortava o barranco, ou o barranco cortava você.


O bar era o centro do mundo. Tinha tudo o que um homem precisa e tudo o que uma criança deseja.

Nas prateleiras, os doces e os xaropes ficavam parados sob a luz. Havia refrigerantes gelados e mesas de sinuca onde as bolas batiam com um som seco e decidido. O ar tinha o cheiro dos goles ardentes e do tabaco dos cigarros. Era um cheiro forte, de gente que trabalha.

Havia comida de sustento: o pão, o vinho e a mortadela. A linguiça pendurada e as latas de sardinha. O Kitut era sólido e confiável. Para nós, havia os doces mil. O pé de moleque que exigia dentes fortes, o gibi, o doce de amendoim e a queijadinha.

Toda sorte de homens encarregados da vida passava por ali. Eles bebiam e falavam, e o balcão ouvia tudo. Era o paraíso doce e o paraíso salgado. Um lugar de trocas, onde o açúcar das crianças encontrava o álcool dos adultos, e o caderno do fiado anotava o preço de cada um.

O bar era o palco da verdade. Nele, os homens e as mulheres não podiam esconder quem eram.

Havia os que erravam e os que buscavam a briga. Havia os piadistas que riam para não chorar. Os trabalhadores chegavam sóbrios e saíam etílicos, carregando o peso do dia nos ombros. Vi os homens traídos e os infiéis; todos bebiam o mesmo xarope ardente no balcão.

As donas de casa apareciam com sua carência, buscando algo que o lar não dava. Os amigos de ocasião visitavam as grutas das mulheres generosas. Havia as amantes sem filtro. Com elas, não havia conversa fiada, apenas a física, a química e o orgasmo. O cheiro da pele se misturava ao cheiro do cigarro e tudo ficava impregnado no ar.

Não havia julgamento no bar. A vida era honesta porque era crua. Cada um buscava o seu alento, fosse no doce de amendoim, na sinuca ou no corpo de outra pessoa. No final, todos pagavam o preço, fosse em dinheiro ou no caderno do fiado.


Entendi, Ed. Você quer o texto original alongado, ou seja, expandido, com mais corpo, mais detalhes, mas sem perder a essência da sua memória. Vou manter o tom cru e direto, mas dar mais ritmo e densidade, como se fosse uma narrativa que se abre em camadas.  


Aqui está a versão expandida:


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O Barranco e o Aço


O Reimberg era terra dura.  

Era olaria, tijolos, barranco.  

Onde havia olaria, havia fogo, barro e homens suados.  

Onde havia barranco, havia meninos com enxadeco, cortando a terra como se fossem homens.  


O barulho da construção nunca parava.  

O aço batia, o buraco crescia.  

Eu caí.  

O aço entrou nas costelas.  

Foi uma queda limpa, mas o furo era fundo.  

O hospital cheirava a coisas quebradas, a corpos que precisavam ser consertados.  

A OSEC trouxe a cirurgia.  

Trouxe também o silêncio das salas brancas.  


Na romaria, a multidão passava.  

Diziam que eu ia viver.  

As costelas doíam quando eu respirava.  

Mas a comida era boa.  

A panela de pressão explodia na cozinha.  

Mandioca frita. Ovos. Batata no vinagrete.  

Alegria simples, alegria no prato.  


Dentro de casa havia paz.  

Fora, correria.  

Aprendi o bê-á-bá.  

Aprendi a somar.  

Aprendi a cair de barranco.  

E aprendi que cair também é lição.  


O sabão era Phebo.  

Seu Joel e Kito cuidavam da marcenaria.  

O cheiro da madeira cortada era bom, era limpo.  

Mas no bar, as descobertas eram outras.  

No bar havia facadas.  

Havia sangue.  

Havia morte.  

O bar não tinha simpatia.  


Nossa casa tinha escadas no barranco.  

Não tinha portão.  

O forro era de madeira.  

Eu tocava violão.  

Sentia a ironia da dor.  

Eu não cantava bem, mas conhecia as letras.  

E as letras não mentem.  


Fiz pipas.  

Ganhei dinheiro.  

Comprei bicicleta.  

A televisão e a antena ficavam separadas.  

As cáries traziam dor nos dentes.  

A surra trazia dor no corpo.  


Ser filho de dono de bar era conhecer o caderno do fiado.  

O fiado era uma conta que nunca trazia alegria.  

Era dívida que crescia como mato.  


No Reimberg, ou você cortava o barranco,  

ou o barranco cortava você.  


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O Bar


O bar era o centro do mundo.  

Tinha tudo o que um homem precisa.  

Tinha tudo o que uma criança deseja.  


Nas prateleiras, os doces e os xaropes ficavam parados sob a luz.  

Refrigerantes gelados.  

Mesas de sinuca.  

As bolas batiam com som seco e decidido.  

O ar tinha cheiro de álcool e tabaco.  

Cheiro forte, de gente que trabalha.  


Havia comida de sustento: pão, vinho, mortadela.  

Linguiça pendurada.  

Latas de sardinha.  

Kitut sólido e confiável.  

Para nós, havia os doces mil.  

Pé de moleque que exigia dentes fortes.  

Queijadinha macia.  

Doce de amendoim.  

Gibis coloridos.  


Toda sorte de homens passava por ali.  

Trabalhadores, traídos, infiéis.  

Chegavam sóbrios.  

Saíam pesados.  

O balcão ouvia tudo.  

Era paraíso doce e paraíso salgado.  


As donas de casa vinham buscar o que faltava.  

Os amigos de ocasião buscavam mulheres generosas.  

As amantes não pediam conversa.  

Só corpo. Só pele.  

O cheiro da pele misturava-se ao cigarro.  

Tudo ficava impregnado no ar.  


Não havia julgamento no bar.  

A vida era honesta porque era crua.  

Cada um buscava alento.  

No doce.  

No álcool.  

No corpo.  

No final

, todos pagavam.  

Dinheiro ou fiado.  


O bar era palco da verdade.  

Ali ninguém escondia quem era.  

Ali a vida mostrava o rosto sem máscaras 



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